Dra. Carolina Martins Neder

  1. Epidemiologia


A ansiedade é uma emoção humana normal que todos experimentamos em diferentes momentos da vida. Em crianças, a ansiedade pode se apresentar como um sentimento de medo, preocupação ou desconforto frente a situações do cotidiano. Quando esses sentimentos são freqüentes, intensos ou duram por um tempo significativo, podem indicar uma condição que exige atenção: o transtorno de ansiedade infantil.

  • Prevalência

 estudos indicam que a ansiedade aparece em crianças e adolescentes de várias faixas etárias, com variações regionais e culturais. Em termos gerais, a ansiedade é uma das dificuldades emocionais mais comuns na infância e na adolescência. A estimativa de prevalência varia conforme os critérios diagnósticos adotados, a idade, o sexo e o contexto sociocultural.

  • Diferença entre ansiedade transitória e transtorno

 é normal que crianças passem por fases de medo ou receio, como medo do escuro, de ficar longe dos pais, de novos ambientes ou de situações novas (por exemplo, início da escola). Quando esses medos são simples e temporários, não configuram um transtorno. Já quando a ansiedade é persistente (durando semanas ou meses), excessiva para a idade, interfere no funcionamento diário (escola, sono, amizades, atividades) ou gera sofrimento significativo, pode ser indicativa de transtorno de ansiedade.

  • Impactos a longo prazo

 sem manejo adequado, a ansiedade infantil pode aumentar o risco de dificuldades acadêmicas, isolamento social, baixa autoestima e, em alguns casos, evoluir para quadros de depressão ou ansiedade generalizada na adolescência. A boa notícia é que intervenções precoces costumam reduzir a severidade, encorajar estratégias de enfrentamento saudáveis e melhorar o prognóstico.

  1. Causas e fatores de risco


A ansiedade infantil é multifatorial. Não há uma única causa, mas sim a interação entre fatores biológicos, psicológicos e ambientais. Compreender esse conjunto ajuda a identificar crianças que possam precisar de apoio.

  • Fatores biológicos e genéticos:
    • Herança genética: alguns transtornos de ansiedade tendem a ocorrer em famílias, sugerindo uma contribuição genética.
    • Neurobiologia: diferenças na regulação de neurotransmissores (como GABA, serotonina) e padrões de resposta ao estresse podem influenciar a sensibilidade à ansiedade.
    • Temperamento: bebês e crianças com temperamento mais tímido, cauteloso ou sensível ao ambiente podem ter risco maior de desenvolver ansiedade.
  • Fatores psicológicos:
    • Aprendizagem de padrões de pensamento: crenças de que situações são perigosas ou incontroláveis podem alimentar a ansiedade.
    • Autopercepção: dificuldades de autorregulação emocional, autocontrole ou autocriticismo podem intensificar o medo.
    • Traços de personalidade: irritabilidade, sensibilidade emocional e hiperalerta ante sinais de possível perigo podem favorecer ansiedade.
  • Fatores ambientais e sociais:
    • Estressores familiares: conflitos, mudanças de rotina, insegurança financeira, luto, doenças na família.
    • Eventos traumáticos: perdas, separação dos pais, bullying, incidentes de violência.
    • Demandas acadêmicas e sociais: pressão para desempenho, expectativas altas, dificuldades de socialização, bullying.
    • Modelagem parental: comportamentos ansiosos observados nos cuidadores podem ser internalizados pela criança.
    • Ambiente escolar: clima institucional, apoio de professores, relações com colegas.
  • Interação entre fatores:
    • Um temperamento mais sensível pode responder de forma mais intensa a estressores ambientais, aumentando a probabilidade de desenvolver ansiedade se não houver estratégias de apoio.
  1. Tipos de ansiedade na infância


A ansiedade pode manifestar-se de várias formas na infância e adolescência. Abaixo estão os tipos mais comuns, com breve descrição de cada um:

  • Transtorno de ansiedade de separação (TADS):
    • Medo intenso ou ansiedade quando a criança se separa dos pais ou cuidadores, acompanhado de sofrimento significativo e recusa em ir à escola ou dormir fora de casa.
  • Transtorno de ansiedade generalizada (TAG) na infância:
    • Preocupação excessiva e persistente em várias áreas da vida (escola, família, saúde, desempenho) que é difícil de controlar e acompanhada de sintomas físicos como fadiga, tensão, insônia.
  • Transtorno de ansiedade social (fobia social) na infância:
    • Medo intenso de situações sociais ou de atuação em público, medo de ser avaliado negativamente, resultando em evitação de atividades como falar em sala de aula, participar de interações com pares.
  • Transtornos de ansiedade específicos:
    • Medo marcado e irracional de objetos ou situações específicas (por exemplo, medo de insetos, de ficar sozinho, de voar), levando à evitação que interfere na vida diária.
  • Transtorno de pânico com ou sem agorafobia:
    • Episódios de medo intenso súbito com sintomas físicos (palpitações, falta de ar, tontura) acompanhados de preocupação com repetição de ataques ou com as consequências de um novo ataque.
  • Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) em crianças:
    • Presença de obsessões (pensamentos intrusivos, indesejados) e/ou compulsões (comportamentos repetitivos) que consomem tempo e causam sofrimento.
  • Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) em crianças:
    • Reexperiência de um evento traumático, evitação de estímulos que lembrar o trauma, alterações em humor e hiperexcitação, com impacto no funcionamento diário.

Observação: nem toda ansiedade infantil se encaixa nesses rótulos clínicos. Em algumas situações, crianças podem apresentar sintomas mistos ou atípicos que ainda exigem avaliação.

  1. Diferenças entre o sentimento de ansiedade e o transtorno de ansiedade
  • Ansiedade como emoção normal:
    • A ansiedade é uma resposta natural a situações percebidas como desafiadoras ou perigosas. Pode ter função adaptativa, ajudando a manter a criança atenta, preparada para enfrentar desafios (por exemplo, antes de um exame, em uma apresentação escolar ou em situações novas).
    • Sintomas comuns: sensação de aperto no peito, respiração rápida, tremores, inquietação, dificuldade para dormir, pensamentos que ficam repetitivos sobre o que pode dar errado.
  • Transtorno de ansiedade:
    • Trata-se de uma condição clínica em que a ansiedade é mais intensa, persistente e prejudica o funcionamento diário da criança.
    • Critérios diagnósticos envolvem duração dos sintomas (pelo menos algumas semanas para condições infantis), interferência com escola, casa, relacionamentos, bem como sofrimento significativo.
    • Em transtornos de ansiedade, a ansiedade não se resolve apenas com o tempo; pode exigir intervenções terapêuticas ou farmacológicas, dependendo do caso.
  • Aspectos-chave para diferenciar:
    • Intensidade e duração: ansiedade normal tende a ser episódica e proporcional à situação; transtorno envolve sintomas que permanecem por meses e são desproporcionais à situação.
    • Impacto funcional: ansiedade normal não impede a criança de ir à escola ou participar de atividades; transtorno acarreta dificuldades reais de participação e desempenho.
    • Desfavorabilidade ao lidar com a situação: na ansiedade normal, a criança pode aprender estratégias para lidar; no transtorno, pode haver resistência persistente a mudanças ou situações sociais.
    • Presença de comorbidades: ansiedade clínica pode acompanhar outros transtornos (déficits de atenção, depressão infantil, problemas de sono).
  1. Sinais de alerta e quando buscar avaliação


Conhecer os sinais de alerta ajuda a identificar quando é hora de buscar ajuda profissional. Abaixo estão sinais que merecem atenção:

  • Sinais comportamentais:
    • Medo intenso ou pânico persistente que não é proporcional à situação.
    • Evitamento persistente de atividades, lugares ou pessoas.
    • Ataques de ansiedade frequentes ou sintomas físicos intensos (dor no peito, dificuldade para respirar) sem explicação médica clara.
    • Preocupação excessiva que interfere com o desempenho escolar, social ou familiar.
    • Regressão de comportamentos já superados (comportamentos de bebê, хanais, enurese noturna), especialmente em momentos de estresse.
    • Dificuldade de concentração, queda no desempenho escolar sem explicação óbvia.
  • Sinais físicos:
    • Dores de cabeça frequentes, queixas gastrointestinais (dor abdominal, sensação de enjoo) sem causa médica.
    • Sintomas de insônia ou sono fragmentado.
    • Fadiga persistente, irritabilidade ou alterações no apetite.
  • Sinais de risco para segurança:
    • Ideação de fatalidade, desesperança ou comportamentos autolesivos.
    • Bullying contínuo ou relatar que se sente sem saída.
  • Mudanças no estilo de vida:
    • Evitar atividades ou brincadeiras que a criança costumava gostar.
    • Isolamento social, queda na participação com amigos.

O que fazer ao observar sinais de alerta:

  • Converse com a criança de forma calma, sem juízos, criando espaço para que ela expresse sentimentos.
  • Registre o que é observado (quando começou, com que situações, duração, intensidade).
  • Busque orientação de um profissional de saúde infantil (pediatra, psicólogo, psiquiatra infantil) para uma avaliação adequada.
  • Se houver sinal de risco imediato ou ideação autolesiva, procure atendimento de urgência.
  1. Prevenção


A prevenção da ansiedade infantil envolve abordagens que fortalecem o bem-estar emocional e criam um ambiente seguro e previsível para a criança. Medidas preventivas eficazes incluem:

  • Estabelecer rotinas estáveis:
    • Horários consistentes para acordar, comer, estudar, brincar e dormir ajudam a criança a se sentir segura.
    • Preparar a criança para mudanças graduais (novos ambientes, mudança de escola) com antecedência e informações simples.
  • Estímulo de habilidades de enfrentamento:
    • Ensinar técnicas simples de respiração, relaxamento muscular progressivo ou mindfulness para crianças.
    • Incentivar a expressão verbal de sentimentos e o uso de “caixa de estratégias”: por exemplo, uma lista de ações que ajudam quando a ansiedade aumenta (respirar profundo, fazer uma caminhada curta, falar com alguém de confiança).
  • Comunicação aberta e afetuosa:
    • Ouvir ativamente sem minimizar os sentimentos da criança.
    • Validar as emoções: “É compreensível sentir medo quando é algo novo.”
    • Evitar críticas excessivas sobre como a criança sente ou reage.
  • Estímulo de hábitos saudáveis:
    • Sono adequado, alimentação equilibrada, atividade física regular.
    • Redução de estímulos excessivos antes de dormir (evitar telas, manter ambiente tranquilo).
  • Ambiente escolar acolhedor:
    • Colaboração entre pais, escola e profissionais de saúde para identificar fontes de estresse e criar planos de apoio.
    • Fomentar habilidades sociais, jogos cooperativos e atividades que promovam Autoconfiança.
  • Redução de estressores desnecessários:
    • Evitar pressões para desempenho excessivo; valorizar esforço e progresso.
    • Gerenciar conflitos familiares e situações de mudança com clareza e apoio.
  • Modelagem de comportamentos saudáveis:
    • Crianças aprendem observando. Pais e cuidadores podem demonstrar como lidar com a ansiedade de forma adaptativa.
  1. Tratamento


Quando a ansiedade infantil é persistente, intensa ou prejudica o funcionamento, diferentes abordagens terapêuticas podem ser recomendadas, frequentemente em combinação:

  • Abordagem psicoterapêutica:
    • Terapia cognitivo-comportamental (TCC) para crianças: uma das abordagens mais eficazes. Envolve:
      • Identificação de pensamentos distorcidos que alimentam a ansiedade.
      • Técnicas de dessensibilização gradual (exposição suave a situações que provocam medo, de forma controlada e segura).
      • Desenvolvimento de estratégias de enfrentamento, relaxamento e habilidades de resolução de problemas.
      • Treinamento de habilidades sociais e de comunicação.
    • Terapia de jogo (especialmente útil para crianças pequenas): usa atividades lúdicas para expressão de sentimentos, regulação emocional e construção de estratégias de enfrentamento.
    • Terapia familiar: envolve pais ou responsáveis para apoiar a criança, ajustar padrões de comunicação, reduzir conflitos e criar um ambiente de suporte consistente.
    • Terapias baseadas em mindfulness adaptadas para crianças: ajudam a criança a observar seus pensamentos, sentimentos e sensações físicas sem se identificar com eles, promovendo regulação emocional.
  • Abordagem farmacológica:
    • Em alguns casos, especialmente quando a ansiedade é grave, persistente ou não responde a psicoterapia, pode-se considerar o uso de medicações ansiolíticas ou antidepressivas, geralmente inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS) ou outros fármacos aprovados para uso pediátrico.
    • A decisão de iniciar medicação envolve avaliação cuidadosa pelo pediatra, psicólogo/psiquiatra infantil ou psiquiatra, levando em conta benefícios, possíveis efeitos colaterais e monitoramento.
    • A farmacoterapia é tipicamente combinada com psicoterapia para melhores resultados.
  • Programas de apoio escolar:
    • Intervenções no ambiente escolar que promovem segurança, acessibilidade e inclusão.
    • Planos individualizados de apoio (quando necessário), com estratégias de acomodação acadêmicas e sociais.
    • Treinamento de professores e equipe escolar para reconhecer sinais de ansiedade e aplicar estratégias de suporte sem estigmatizar.
  • Estilo de vida e manejo de comorbidades:
    • Se a criança apresentar comorbidades como TDAH, depressão ou transtornos do sono, o plano de tratamento pode precisar de ajustes para abordar todas as necessidades.
  • Estabelecimento de metas e acompanhamento:
    • Definição de metas realistas, com progressos monitorados ao longo do tempo.
    • Reavaliação periódica para ajustar intervenções conforme a evolução da criança.
  • Papel dos cuidadores no tratamento:
    • Participação ativa em sessões quando apropriado (ou com informações acessíveis para casa).
    • Consistência nas rotinas, adesão às estratégias de enfrentamento, tranquilidade durante conflitos e reforço positivo.
    • Evitar a criação de mensagens que aumentem a ansiedade (não sobrecarregar a criança com informações desnecessárias, por exemplo).

Observação sobre segurança:

  • Em situações de risco iminente de autolesão ou ideação suicida, é fundamental buscar atendimento de emergência imediatamente e manter a criança sob supervisão segura. O apoio de serviços de saúde mental pode incluir avaliação de risco, planos de contingência e contatos de suporte.
  1. Papel do pediatra


O pediatra desempenha um papel central na detecção precoce, orientação e encaminhamento, atuando como primeira linha de cuidado para crianças com ansiedade. O acompanhamento pediátrico pode incluir:

  • Avaliação inicial:
    • Entrevista com os cuidadores e a criança (quando apropriado) para entender sintomas, duração, impacto funcional e história médica.
    • Exame físico para excluir condições médicas que possam mimetizar sintomas de ansiedade (problemas respiratórios, distúrbios gastrointestinais, ansiedade ligada a dor, entre outros).
    • Identificação de fatores de risco, sinais de alerta e comorbidades.
  • Encaminhamento adequado:
    • Encaminhamentos para psicologia/psicoterapia infantil, psiquiatria infantil ou serviços de medicina de família com foco em saúde mental, conforme a necessidade.
    • Coordenação com a escola para criação de um plano de apoio adequado.
  • Orientação de manejo em casa:
    • Fornecimento de orientações de educação emocional, estratégias de manejo do sono, alimentação, atividade física, rotina regular e técnicas simples de regulação emocional.
    • Sugestões de recursos educativos claros e acessíveis para pais e cuidadores.
  • Acompanhamento:
    • Acompanhamento regular para monitorar evolução, ajustar o plano de tratamento e verificar efeitos adversos de medicações (quando utilizadas).
    • Reavaliação de diagnóstico se houver mudanças no curso da ansiedade.
  • Suporte para a família:
    • Orientação sobre como conversar com a criança, como manter a consistência em casa, e como reduzir a ansiedade parental que pode, por si só, influenciar a criança.
  • Prevenção de recaídas:
    • Planejamento de estratégias de manutenção após melhora clínica.
    • Educação sobre sinais precoces de retorno da ansiedade.
  1. Perguntas úteis para pais e cuidadores (autoavaliação prática)
  • Há quanto tempo a criança demonstra preocupação excessiva ou medo em várias situações?
  • A ansiedade interfere no sono, no desempenho escolar, no convívio com amigos ou em atividades de lazer?
  • Existem eventos estressantes recentes (mudanças, brigas familiares, bullying) que possam ter contribuído?
  • A criança evita ou resiste a situações específicas, como ir à escola, brincar com colegas, ou participar de atividades?
  • Houve mudanças de comportamento, irritabilidade, queixas físicas frequentes sem causa médica?
  • Houve quedas de desempenho recente na escola ou alterações no apetite/sono?
  • Há histórico familiar de transtornos de ansiedade ou outras condições de saúde mental?
  • Quais estratégias já foram tentadas em casa para lidar com a ansiedade? Elas ajudaram?
  • A criança já recebeu orientações ou tratamento anterior? Qual foi o resultado?
  1. Lições práticas para o dia a dia
  • Valide os sentimentos da criança: reconheça a ansiedade sem ridicularizá-la ou minimizá-la.
  • Pratique a respiração diafragmática simples: inspire contando até quatro, segure por dois segundos, expire contando até quatro. Repita várias vezes.
  • Use técnicas de grounding (solo) para acalmar: nomeie cinco coisas que você vê, quatro que você ouve, três que pode tocar.
  • Crie um “raciocínio seguro” com a criança: uma lista de pensamentos positivos ou realistas que ela pode recorrer quando se sente ansiosa.
  • Estabeleça um ritual de rotina previsível para antes de dormirem, com higiene do sono e atividades relaxantes.
  • Desencoraje o uso de punições por ansiedade, privilegiando o diálogo, o apoio e estratégias de enfrentamento.
  • Promova interação social gradual: encoraje participação em atividades em que a criança possa experimentar sucesso e apoio de pares.
  • Fale sobre a ansiedade de forma aberta e normalizada, ensinando que todos se sentem ansiosos às vezes, e que há caminhos para lidar com isso.

11. Recursos úteis e próximos passos

  • Procure um pediatra de confiança para a primeira avaliação ou encaminhamento.
  • Busque serviços de psicologia infantil, psiquiatria infantil ou saúde mental infantil na sua região.
  • Considere grupos de apoio para pais, workshops sobre manejo de ansiedade e material educativo adequado à idade da criança.
  • Em caso de dúvidas, pergunte: “Qual é o objetivo deste tratamento? Quais são as opções? Como é o acompanhamento?”

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