Dra. Carolina Martins Neder

A diarreia em crianças é um problema de saúde comum, que pode variar desde uma condição passageira até uma situação que exige avaliação médica cuidadosa.

1. Epidemiologia

  • Prevalência: A diarreia é uma das principais causas de morbidade infantil em todo o mundo. Em crianças, especialmente nos primeiros anos de vida, é comum ocorrer episódios que variam de leves a moderados.
  • Impacto global: Em países de baixa e média renda, a diarreia continua sendo uma causa significativa de hospitalização e mortalidade infantil, principalmente entre crianças menores de cinco anos.
  • Etiologias sazonais: Muitas diarreias são associadas a infecções virais, bacterianas ou parasitárias, com padrões sazonais que podem variar conforme a região (por exemplo, rotavírus em determinados períodos do ano; infecções bacterianas associadas a contaminação alimentar).
  • Fatores de risco:
    • Falta de acesso a água potável e saneamento adequado.
    • Práticas inadequadas de higiene, especialmente higiene das mãos.
    • Alimentação infantil inadequada, uso de leite não apropriado para a idade, ou exclusão de leite em determinados contextos.
    • Vacinação incompleta (ex.: contra rotavírus).
    • Desnutrição pré-existente, que pode aumentar a gravidade e duração dos episódios.
  • Impacto nutricional: Episódios de diarreia podem levar à desidratação e, quando repetidos ou graves, à desnutrição, atraso no crescimento e prejuízo do bem-estar geral.

2. Causas

A diarreia em crianças pode ter origens multifatoriais, com causas principalmente infecciosas, mas também não infecciosas.

A. Causas infecciosas (mais comuns)

  • Viremias:
    • Rotavírus: uma das causas mais comuns de diarreia aguda em crianças pequenas; pode levar a desidratação rápida.
    • Adenovírus, astrovírus, norovírus: outros vírus que causam gastroenterite, especialmente em ambientes comunitários.
  • Bacterianas:
    • Escherichia coli enterotoxigênica (ETEC), E. coli diarrégena (EPEC), Campylobacter, Salmonella, Shigella, Vibrio.
    • Infecções associadas a água contaminada, alimentos mal conservados, ou higiene inadequada.
  • Parasitas:
    • Giardia lamblia, Entamoeba histolytica, Cryptosporidium, entre outros; comuns em áreas com saneamento precário ou em situações de viagem/banhos de recreação em água não tratada.
  • Infecções mistas: pode haver coinfecções virais e bacterianas, aumentando a gravidade.

B. Causas não infecciosas

  • Intolerâncias e alergias alimentares:
    • Intolerância à lactose temporária após infecção viral.
    • Alergia a proteínas do leite de vaca (APLV) em crianças muito jovens.
  • Doenças inflamatórias intestinais:
    • Doença de Crohn, colite ulcerativa, que são menos comuns em crianças, mas devem ser consideradas em diarreias crônicas.
  • Uso de antibióticos:
    • Alteração da microbiota intestinal (disbiose) pode provocar diarreia associada ao uso de antibióticos.
  • Outras causas:
    • Doenças metabólicas raras, hiperperistalse, deficiência de enzimas digestivas.
    • Doenças sistêmicas que apresentam diarreia como sintoma secundário.

3. Tipos de diarreia

A diarreia pode ser classificada de várias maneiras, levando em conta a duração, a apresentação clínica e a etiologia.

A. Pela duração

  • Diarreia aguda: dura até 14 dias. É o tipo mais comum em crianças e, na maioria dos casos, autolimitada.
  • Diarreia persistente: dura entre 14 e 29 dias.
  • Diarreia crônica: dura mais de 30 dias; exige avaliação para diagnóstico de base.

B. Pela consistência e frequência das evacuações

  • Diarreia aquosa: fezes soltas, líquidas, com aumento da frequência.
  • Diarreia com sangue (disenteria): presença de sangue nas fezes, pode indicar inflamação intestinal ou infecção bacteriana.
  • Diarreia mucosa: fezes com muco, comum em gastroenterites virais ou bacterianas.
  • Diarreia com gordura (esteatorreia): fezes gordurosas, mal cheirosas e volumosas, sugerindo má absorção.

C. Pela etiologia prevista

  • Diarreia infecciosa aguda: causada por vírus, bactérias ou parasitas; geralmente associada a outros sintomas como vômitos, febre e mal-estar.
  • Diarreia não infecciosa: associada a intolerâncias alimentares, uso de medicamentos, ou doenças inflamatórias.

D. Por desidratação

  • Sem desidratação: episódios leves que não comprometem o estado de hidratação.
  • Desidratação leve, moderada ou grave: depende da perda de fluidos, sinais clínicos e estado hemodinâmico; requer avaliação clínica urgente em alguns casos.

4. Sinais de alarme (sinais que indicam necessidade de avaliação médica imediata)

Detectar sinais de alarme é essencial para evitar complicações graves, especialmente desidratação grave. Procure atendimento médico se houver qualquer um dos seguintes sinais:

  • Desidratação:
    • Boca seca, lábios ressecados, olhos fundos.
    • Idratação diminuída (criança adora colocar a mão na boca, reduzir a produção de lágrimas).
    • Pele menos elástica; tempo de reposição da pele demorado ( ≥ 2 segundos ao beliscar a pele).
    • Fontanela deprimida em bebês.
    • Letargia, irritabilidade excessiva ou sonolência.
  • Febre alta persistente ou febre que não cede com antipiréticos, especialmente em crianças pequenas.
  • Vômitos incontroláveis com incapacidade de manter líquidos.
  • Sangue ou tecido de fezes com sangue, fezes pretas (melena) sem explicação.
  • Dor abdominal intensa ou contínua.
  • Sinais neurológicos: sonolência extrema, dificuldade para acordar, convulsões.
  • Piora rápida do estado geral, fraqueza marcada, incapacidade de urniciar ou momificar.
  • Anormalidades urinárias: pouca produção de urina, urina muito escura.
  • História de condições especiais: imunossupressão, doença crônica, recentemente recebimento de cirurgia ou hospitalização.

Observação: bebês e crianças pequenas são mais vulneráveis à desidratação, por isso qualquer sinal de alerta deve ser levado a sério.

5. Prevenção

A prevenção da diarreia em crianças envolve estratégias de higiene, alimentação segura, vacinação quando disponível e cuidados gerais de saúde. Abaixo, algumas medidas práticas:

A. Higiene e saneamento

  • Higiene das mãos: lavar as mãos com água e sabão antes de preparar alimentos, antes das refeições, após usar o banheiro, após trocar fraldas e após brincar ao ar livre.
  • Água potável segura: usar água tratada para beber, cozinhar e fazer recomendações de higiene.
  • Saneamento e descarte de resíduos: evitar acúmulo de detritos ou lixo que possam atrair vetores; cuidar de superfícies de cozinha e utensílios.
  • Cuidado com brinquedos e ambientes comunitários: manter brinquedos limpos em creches e escolas; promover hábitos de higiene entre crianças.

B. Alimentação segura

  • Aleitamento materno exclusivo até 6 meses e continuado até 12 meses ou mais, quando possível.
  • Alimentação complementar segura: introdução gradual de alimentos nutritivos, evitando alimentos de difícil digestão ou que possam contaminar.
  • Cuidados com leite e fórmulas: seguir recomendações de preparo, armazenamento e aquecimento; descartar sobras de mamadeiras usadas.
  • Evitar alimentos de origem duvidosa: evitar consumir alimentos fora da cadeia de frio ou sem controle de qualidade, especialmente em viagens ou lugares com higiene precária.
  • Proteção contra alergias: introdução de novos alimentos com cuidado, especialmente se houver histórico familiar de alergias.

C. Vacinação

  • Vacinas disponíveis: imunizações contra rotavírus reduzem significativamente a incidência de diarreia viral grave em bebês e crianças pequenas.
  • Atualização vacinal: manter o calendário vacinal em dia para proteger contra outras infecções que podem causar diarreia indireta ou reforçar gravidade de infecções gastrointestinais.

D. Cuidados com a água de recreação

  • Crianças que brincam em piscinas, rios ou lagos devem ter cuidado com água contaminada; higiene após nadar é importante.

E. Cuidados com crianças em ambientes comunitários

  • Creches, escolas e ambientes de cuidado infantil devem promover higiene de mãos, superfícies limpas e políticas de isolamento de crianças com diarreia ou vômitos para evitar surtos.

6. Tratamento

O tratamento da diarreia em crianças deve considerar a idade da criança, a gravidade e a presença de sinais de desidratação. O manejo adequado pode reduzir a duração da diarreia, mitigar a desidratação e prevenir complicações nutricionais.

A. Hidratação

  • Plano de reposição de líquidos:
    • Em todo caso de diarreia, a reposição de fluidos é crucial. Leite materno ou fórmula pode continuar a ser oferecido conforme a idade.
    • Soluções de reidratação oral (SRO) são recomendadas para reposição de fluidos com eletrólitos apropriados. A dose costuma depender da idade e do peso.
  • Quando buscar SRO:
    • Em diarreia leve a moderada sem sinais de desidratação grave, ofereça pequenas quantidades com mais frequência.
    • Em desidratação leve a moderada, aumente o volume de líquidos de forma gradual conforme orientação médica.
  • Cuidados com bebidas açucaradas:
    • Evitar refrigerantes, sucos agressivos e bebidas com alto teor de açúcar, que podem piorar a diarreia e a desidratação.
  • Desmame e alimentação:
    • Proporcionar alimentação regular, com alimentos de fácil digestão. Em muitos casos, manter a alimentação normal ajuda na recuperação 
    • Não distrair com restrições excessivas de dieta sem orientação médica; manter calorias e nutrientes adequados.

B. Medicamentos

  • Antidiarreicos:
    • Em crianças, o uso de loperamida não é recomendado para diarreia aguda sem orientação médica, especialmente em crianças pequenas. Pode haver contraindicações e riscos.
  • Probióticos:
    • Alguns probióticos específicos podem reduzir a duração da diarreia em certas situações virais ou bacterianas, especialmente em lactentes. A escolha do probiótico deve ser orientada por um profissional de saúde.
  • Antibióticos:
    • Não devem ser usados indiscriminadamente. A terapia antibiótica é indicada apenas quando há evidência de infecção bacteriana específica ou em casos de diarreia causada por certas bactérias com indicação clínica. A decisão deve ser tomada por um médico.
  • Tratamento de complicações associadas:
    • Antieméticos podem ser usados para controle de vômitos em alguns casos, conforme orientação médica.
    • Suplementação de zinco pode ser recomendada em crianças em determinadas faixas etárias e populações para reduzir a duração da diarreia e prevenir recidivas, conforme diretrizes locais.

C. Manejo nutricional durante o episódio

  • Manter alimentação regular: manter dieta habitual quando possível, com ajustes para facilitar a digestão.
  • Alimentos de fácil digestão: arroz, batata, banana, maçã cozida, papa de aveia, iogurte natural (quando não houver intolerância).
  • Evitar alimentos que irritam o intestino: frituras, condimentos fortes, alimentos muito gordurosos.
  • Reintrodução de alimentos: assim que possível, reintroduzir alimentos normais gradualmente, assegurando ingestão adequada de energia e nutrientes.

D. Monitoramento domiciliar

  • Registro de sinais vitais: manter um controle de ingestão de líquidos, urina, humor e energia da criança.
  • Sinais de melhoria: redução da diarreia, sem sinais de desidratação, retomada do apetite.
  • Sinais de piora: surgimento de sinais de alarme, vômitos persistentes, febre alta contínua, sangue nas fezes, letargia.

E. Quando procurar atendimento médico

  • Em caso de desidratação, sinais de alarme, diarreia persistente (mais de 2 semanas), febre alta, sangue nas fezes, vômitos incontroláveis, ou se a criança tem uma condição médica subjacente, imunossupressão ou mal funcionamento imunológico.

7. Papel do pediatra

O pediatra é o profissional de referência para avaliação, diagnóstico, orientação e tratamento de diarreia em crianças. Seu papel envolve várias etapas:

A. Avaliação clínica

  • História detalhada: início dos sintomas, duração, frequência de evacuações, presença de sangue, muco, vômitos, febre, hábitos alimentares, ingestão de líquidos, uso de medicamentos recentes (incluindo antibióticos) e histórico de vacinação.
  • Exame físico: avaliação do estado geral, sinais de desidratação, tônus muscular, mucosas, fontanelas (em bebês), estado neurológico, abdômen, presença de dolor abdominal ou distensão.

B. Diagnóstico

  • Determinação da gravidade: avaliação da desidratação e necessidade de intervenção rápida.
  • Investigações adicionais:
    • Em diarreia aguda leve e sem sinais de alarme, muitas vezes não é necessário exame laboratorial.
    • Em casos persistentes ou graves, pode haver exames de fezes (parasitas, patógenos), exames de sangue, ou hemoculturas, se houver suspeita de complicações ou desnutrição.
    • Avaliação de desnutrição: peso, altura, índice de massa corporal para idade, e sinais clínicos.

C. Orientação e tratamento

  • Plano de hidratação e instruções para uso de SRO.
  • Indicações de alimentação e possíveis ajustes alimentares.
  • Prescrição de medicamentos quando indicado, com explicação de uso, doses, duração e possíveis efeitos colaterais.
  • Proibições e precauções: 

D. Prevenção adicional

  • Vacinação: orientação sobre a vacinação disponível contra rotavírus, conforme o calendário local.
  • Educação para cuidadores: instruções claras sobre higiene, alimentação segura, sinais de alarme, e a importância da adesão ao tratamento.

E. Coordenação com outros profissionais

  • Em casos que requerem avaliação nutricional, gastroenterologia pediátrica, ou atendimento em nutrição, o pediatra pode encaminhar para especialistas.
  • Em situações de surtos em creches ou escolas, o pediatra pode orientar sobre medidas de contenção e comunicação com os responsáveis.

8. Perguntas frequentes (FAQ)

  • Diarreia em bebês é normal?
    Episódios leves podem ocorrer, especialmente durante a introdução de novos alimentos ou após infecções virais. No entanto, sinais de desidratação, sangue nas fezes, febre alta ou diarreia que persiste devem ser avaliados por um pediatra.
  • Posso dar leite de vaca logo que a diarreia começa?
    Em muitos casos, o leite de vaca pode ser continuado, a menos que haja intolerância ou alergia diagnosticada. Em bebês que são amamentados, o leite materno continua sendo a melhor opção. Em lactentes não amamentados, ajuste o tipo de fórmula conforme orientação médica.
  • Qual o papel dos probióticos?
    Probióticos podem ajudar em algumas situações a reduzir a duração da diarreia, especialmente em diarreia viral. A escolha do probiótico deve ser orientada pelo pediatra, levando em conta idade e condição clínica.
  • Quando a diarreia é sinal de algo mais grave?
    Quando associada a desidratação significativa, sangue nas fezes, vômitos persistentes, febre alta, dor abdominal intensa, ou atraso no crescimento, a diarreia pode indicar problemas mais graves que requerem avaliação especializada.
  • Rotavírus ainda é comum?
    O rotavírus continua sendo uma causa importante de diarreia em crianças, especialmente em locais com baixa cobertura vacinal ou onde a vacina não é amplamente utilizada. A vacinação é uma medida preventiva eficaz.

9. Conclusão

A diarreia em crianças é um problema de saúde com várias facetas: epidemiologia, etiologias diversas, apresentações clínicas variadas e impactos nutricionais significativos. A compreensão dos sinais de alarme, a adoção de medidas preventivas eficazes, o manejo adequado da hidratação e a atenção ao contexto clínico são essenciais para reduzir complicações e promover a recuperação rápida.

O papel do pediatra é central. Ele orienta o cuidador sobre quando manter a alimentação habitual, como preparar soluções de reidratação, quais medicamentos podem ser apropriados e quando buscar avaliação adicional. A abordagem integrada, que envolve higiene, nutrição, vacinação e instruções claras para famílias, é a melhor estratégia para proteger as crianças e a comunidade de diarreias gastrointestinais.

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